Isabela 12

Sempre indo e nunca chegando: você é assim?

Estava pensando na difícil arte de ser nutróloga no século XXI. Por que estou dizendo isso? Porque é como se tivesse “comprado” um livro e ganhado uma enciclopédia!

Isso faz com que minha relação com a Nutrologia componha uma história interessante. Eu participei do primeiro curso nacional de Nutrologia em 2003, o único que foi realizado em Ribeirão Preto, já que todos os outros passaram a ser em São Paulo (capital). Ela era bem pouco conhecida e parecia uma especialidade como outra qualquer. Mas, feliz coincidência, também em 2003 foi concluído o Projeto Genoma, o fantástico projeto internacional que identificou e sequenciou os nossos genes e marcou literalmente uma “nova era” no mundo da Nutrição. Sim, ele é um marco, que delimitou um “antes” e  um “depois”. Passamos a entender, cada vez mais, como os nossos genes influenciam a nossa resposta à dieta (Nutrigenética) e como os alimentos modulam os nossos genes, influenciando processos de saúde ou de doença (Nutrigenômica). Surpreendente Era Genômica!

Mas até aí tudo bem! O que complicou mesmo o meio de campo, na minha opinião, foi a falta de entendimento pela maioria das pessoas, tanto leigos como muitos profissionais da área, que a nutrição na Era Genômica é INDIVIDUALIZADA. Se é uma área que depende de nossos genes e nossa “carga” genética é única, tudo que escrevermos sobre qualidade alimentar, combinação de alimentos, proporção entre eles, jejum ou não jejum, mais vegetarianismo ou menos vegetarianismo, tudo, exatamente tudo teria que ser individualizado. Mas aí vem “alguém” no canal do YouTube, não necessariamente “doutor”, e diz que, para envelhecer com qualidade de vida e não ter câncer, você deve “cortar carboidrato”. Ponto.

Como assim? Não vai dizer mais nada, criatura? Fibras não são carboidratos? Brócolis não é carboidrato? Couve não é carboidrato? Arroz integral não é carboidrato? Por que generalizar dizendo “cortar carboidrato” e não terminar o parágrafo?

Depois dizem: gordura? Só óleo de côco e banha de porco. Acreditam que andaram banindo até o azeitinho de oliva extravirgem? Meu Deus! Chega a doer escrever isso. E a brusquetta italiana com pão, tomate, queijo, alho e azeite de oliva? De um momento para o outro, temos que descartar o histórico epidemiológico positivo da associação entre a dieta mediterrânea e redução de risco de doenças? Está circulando um vídeo por aí dizendo que sim e eu discordo veementemente, apesar de não ser uma pessoa veemente.

Há ainda aqueles que colocam o jejum intermitente como a nossa salvação e fazem outras mil colocações que literalmente surgem como uma “luz no final do túnel“. Que túnel, companheiro? Preste atenção! Temos que tentar caminhar na luz!!!!

Qualquer hora acho que vou para o YouTube para dizer o que eu penso também, porque as coisas estão realmente saindo do controle e me considero uma pessoa com bom senso. O velho caminho do meio do budismo.  Como generalizar tanto? Por que afirmar tanto? Como que as pessoas conseguem ser tão assertivas se são tantas as particularidades a serem respeitadas em cada ser humano antes de se orientar o que comer, o que não comer, quanto comer, quando comer?

Vamos simplificar! Desejo-lhe um insight. Sabe o que estou dizendo? Aquela coisa de enxergar mais longe do que o nosso cotidiano.

Analise o que é realmente verdadeiro para você. O que faz sentido. O que te conduz a mais plenitude, a mais equilíbrio, a mais realização. Senão, desculpe dizer, você será mais um entre aqueles que “estão sempre indo a algum lugar e nunca chegando a lugar algum“. Simples assim.

Dra Isabela David

Médica nutróloga com Título de Especialista em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Médica Brasileira (AMB)